Manoel Seixas*

-Dona Eugênia, a senhora sabe que seu Juca, virou curador. A senhora precisa ver gente que baixa lá de Ribeirão Preto, de Nuporanga, de Jurucê, de Pontal e de todas as bandas.

Nunca a pacata cidade de Jardinóplis esteve em tamanha evidência, graças aos dons clarividentes que emanavam dessa mística criatura.

Quando o trem aportava à antiga estação, era um Deus nos acuda. Tinham doentes que eram socados, espremidos impulsionados para fora do carro qual o estouro de boiada, na ânsia de ganhar a rua e voar para a casa do curador.

Pai Juca, como era carinhosamente era chamado, ia aplainando arestas de vidas desajustadas, aspergindo o bálsamo consolador sobre os corações machucados, arrumava casamentos para solteironas não permitindo que ficasse pata titias; ajeitava a situação financeira de indivíduos com a corda no pescoço, prestes a deserdar da vida,

Dia 6 de agosto, grande festa do bom Jesus da Lapa, a cidade se regurgita e toma um aspecto festivo, com a vinda de romeiros de todos os quadrantes da Pátria. Nesse dia, a casa de pai Juca, estava abarrotada de gente. Os doentes eram selecionados e colocados numa pequena sala, onde o arcaico assoalho denotava uma visível fragilidade.

E ai, talvez, por desaprovação  do milagroso Bom Jesus da Lapa, o imprevisto acontece, o apodrecido assoalho não suportou o excesso de peso e desmoronou-se fragorosamente, empurrando crianças e gente grande para as profundezas de um infecto porão.

Sabe quem estava lá? Ora, quem? Pai Juca! Que teve duas costelas quebradas e a dentadura espatifada.

Depois de medicado na Santa Casa, o espertalhão confessou na delegacia de polícia, como funcionava o plano: – Ora, seu doutor. Eu me escondia embaixo do assoalho, no porão, e minha mulher vivaldina, especulava os coitados, fazendo mil perguntas. Quando o infeliz adentrava na minha sala de atendimento eu sabia da estória de cada um. Era pura vigarice doutor. Pena que durou pouco.

Manoel Seixas* é ferroviário aposentado e ex-vice-prefeito de Jaguariúna