Clima seco liga sinal de alerta nos reservatórios de Jaguariúna e região

Consumo em alta e estiagem provocam falta de água em várias cidades da Região Metropolitana de Campinas (RMC); Situação afeta todo o Estado

Paula Partyka – [email protected]

A falta de chuvas mantém o Sistema Cantareira em nível de atenção neste mês de setembro para o abastecimento de água em toda a Região Metropolitana de Campinas (RMC).  Além da estiagem prolongada, o aumento nas temperaturas são fatores determinantes para elevação do consumo de água.

O período de estiagem ainda é longo, pois chuvas mais fortes devem ocorrer apenas a partir de novembro e não há previsão de precipitações na região de Campinas pelo menos até o dia 24 de setembro. Ou seja, a seca deve se prolongar pelo menos nos próximos 20 dias. A situação pode ter um pouco de respiro no final do mês, mas ainda não deve ajudar muito no volume de água nos reservatórios.

Neste cenário, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Jaguariúna alerta que o nível dos reservatórios municipais caiu subitamente, provocando desabastecimento pontual em algumas regiões do município. A Polícia Municipal, por sua vez, deve intensificar as rondas com o objetivo de identificar possíveis abusos no uso da água pelos consumidores.

No entanto, o alerta e a falta de água não é um problema exclusivo de Jaguariúna. Diversas cidades da região, como Pedreira, Valinhos e Serra Negra, também enfrentam a situação.

Os reservatórios do município são abastecidos com águas do Rio Jaguari, que está com o nível muito abaixo do normal, medindo cerca de 1.60m. De acordo com a diretora do DAE, Luciana Souza, as medições dos meses anteriores não poderiam prever a atual situação.

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A Estação de Tratamento de Água (ETA) Central do município, responsável pelo abastecimento de todo o perímetro urbano, apresenta atualmente capacidade média de tratamento de 255 l/s (litros por segundo), sendo capaz de atingir 270 l/s durante seu pico de operação, incluindo o reaproveitamento da água de serviço descartada no processo. No entanto, devido às severas condições climáticas (estiagem, calor e tempo excessivamente seco) que se apresentam em boa parte do País no mês de setembro, as operações de tratamento e distribuição foram sensivelmente dificultadas por variados fatores: diminuição das vazões e níveis do rio, diminuição do nível dos rios também resulta em redução da eficiência dos conjuntos de motobomba que realizam a captação da água bruta, a total ausência de chuvas e os níveis críticos de umidade relativa do ar resultaram em expressivo aumento do consumo de água potável em todo o município, potencializado pelos dois feriados do mês de setembro, um deles prolongado.

Mesmo com a ETA Central em capacidade plena, os períodos de pico de consumo levaram a um deplecionamento dos reservatórios de armazenamento de água a aproximadamente 20% de seu volume operacional útil, quando o necessário para segurança do abastecimento são níveis operacionais na faixa de 45 a 85% ao longo do dia. Com os reservatórios de água potável em níveis críticos, houve inclusive a necessidade de desligamento de bombas de distribuição devido à cavitação, ou seja, a entrada de ar nos equipamentos. Consequentemente, ocorreu o esvaziamento dos reservatórios dos bairros, causando as intermitências no abastecimento observadas nas últimas semanas.

Ou seja, as condições climáticas desfavoráveis e o perfil de consumo das últimas semanas resultaram em dificuldades operacionais que impossibilitaram o pleno atendimento da demanda por água potável do município. Esta é uma situação enfrentada por diversos municípios do estado, inclusive de nossa região, como pode ser facilmente apurado nas notícias dos últimos dias.

Na região
Em Amparo, o SAAE informa que a captação de água do município e distritos está prejudicada pela falta de água no Córrego dos Mosquitos. O órgão, mais uma vez, reforça que todos colaborem com o uso consciente de água para que sejam evitadas que medidas mais drásticas sejam tomadas, como por exemplo o racionamento.

Valinhos declarou situação de emergência com a redução na oferta de água para abastecimento da cidade. O decreto publicado na segunda-feira, 14, aponta aumento do consumo, estiagem severa e diminuição dos níveis nos pontos de captação, “inferiores aos limites prudenciais”, como justificavas para a medida, e para evitar risco de rodízio ou racionamento em tempos de pandemia do novo coronavírus.

A cidade de Bauru, no interior paulista, iniciou na quarta-feira, 16, o racionamento de água, com abastecimento em dias alternados. O racionamento foi adotado, segundo o Departamento de Água e Esgoto de Bauru (DAE), devido à seca enfrentada pelo Rio Batalha, que está com um volume de água consideravelmente abaixo do ideal, reduzindo em 10% a disponibilidade da água.

Em São José do Rio Preto, o Semae estima que aproximadamente 180 mil pessoas sejam afetadas pelo racionamento de água que começou nesta quinta-feira, 17. O racionamento começou às 13h em 18 bairros abastecidos pela Estação de Tratamento de Água (ETA), que fica às margens da represa. O horário de racionamento é das 13 às 20h. Nesse período, pode faltar água para os moradores dos bairros atingidos.

Os bairros de Sorocaba abastecidos pelas represas do Ferraz e Castelinho entram em esquema de rodízio no fornecimento de água na quinta-feira, 17. Os dois reservatórios são responsáveis pelo abastecimento de 13% da cidade. Segundo o Saae, a estação está operando com 18% da capacidade total e com declínio de água. O sistema de rodízio é feito de 12 por 12 horas (12 horas de interrupção seguidas de 12 horas de abastecimento normal).

Queimadas
A falta de chuvas, comum neste período do ano, aumenta os riscos de ocorrência de incêndios em matas e terrenos. O fogo em florestas, em especial, pode causar danos graves na flora e na fauna, além de degradar o solo.

O número de focos de incêndio no Estado de São Paulo mais que dobrou entre 1º de janeiro e esta quarta-feira, 15 de setembro, na comparação com o mesmo período do ano passado. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o acumulado de focos em 2020 é de 4.293, ante 2.080 no intervalo equivalente do ano passado – uma alta de 106%.

Somente em Jaguariúna, os dados da Defesa Civil do município revelam que o Batalhão do Corpo de Bombeiros, tem atendido números cada vez maiores de chamados de incêndio. De acordo com a diretora do órgão, Fernanda de Souza Rodrigues Tesche, em julho foi realizado o atendimento de 42 ocorrências, em agosto foram 100 e até a metade deste mês de setembro, já se soma aproximadamente 70 ocorrências. “Nos anos anteriores os números de queimadas foram menores, mas esse ano houve aumento de cerca de 20%”, revela.

Ocorrência de incêndio em área vegetal, no bairro Roseira de Cima, que durou aproximadamente 5h para combatê-lo

Segundo Fernanda, Jaguariúna é privilegiada por possuir um Corpo de Bombeiros municipal, pois não são todas as cidades que possuem uma equipe disponível. Este é um trabalho exaustivo aonde todos chegam ao limite físico, pois é um trabalho muito manual.

“Esses incêndios são criminosos: ou é para queimar lixo, limpar terreno ou sem motivo algum. Colocar fogo mesmo no próprio quintal é crime, isso é lei municipal e Estadual. Se for pego em flagrante pode pegar até dois anos de cadeia”, explica o coordenador do Corpo de Bombeiros, Adauto Rodrigues Junior.

De acordo com o coordenador, é de responsabilidade do dono da propriedade, seja casa, chácara ou fazenda, cuidar do espaço e, colocar fogo, não é cuidar. Para manter o local limpo e livre de riscos de incêndios, é necessário fazer aceiro, uma técnica que tem função de impedir ou retardar os danos causados pelo fogo.

O principal objetivo dessa técnica é de romper a continuidade da vegetação e retirar matéria orgânica do local. Desta forma, se ocorrer um incêndio, o fogo fica em um espaço restrito e não irá se propagar. 

No entanto, é preciso salientar que sozinhos, os aceiros não são suficientes para evitar um incêndio. Isso porque o fogo pode começar por causas acidentais, como uma bituca de cigarro jogada no chão, ou naturais, como um raio. O aceiro só vai cumprir sua função se for limpo constantemente, eliminando o material que pode ser combustível em uma queimada.

O fogo é perigoso, pode atingir casas, animais, pessoas, além de ser prejudicial para a saúde. “Em pleno inverno essa sensação de calor e a umidade muito baixa. Estamos em estado de alerta, não é nem de atenção”, explica Fernanda sobre a gravidade do momento.

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