Reflexos da Pandemia: Sem perder o ritmo e a esperança: O esporte na luta

Seguindo as instruções da Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda o isolamento social como a melhor maneira de combater a disseminação do novo coronavírus, os treinos presenciais de taekwondo foram suspensos desde o fim do mês de fevereiro

As academias fechadas por conta do coronavírus não têm sido impeditivo para os praticantes de taekwondo, alunos do professor José Luiz, continuarem participando de aulas e até disputar torneios online. Mas, o profissional tem sido bastante afetado financeiramente.

José conta que no primeiro mês do decreto de quarentena, conseguiu receber 100% dos pagamentos dos alunos de sua escola e outras academias onde trabalha. Mas, logo foram suspensos os pagamentos e contratos do projeto social do Governo do Estado de São Paulo, Centro de Formação de Taekwondo São Paulo Não Foge a Luta, e de uma escola particular que o profissional havia sido contratado há cerca de um mês.

“No segundo mês, é possível considerar que houve 100% do pagamento, mas com o oferecimento de desconto nas mensalidades devido às circunstâncias. A cada mês os pais, também perdendo empregos, foram cortando as atividades extras. A cada mês, mais desistências, até mesmo pelo desinteresse dos alunos, pois eles gostam da atividade pela interação, então é complicado”, relata José.

Aliado a estes dois fatores, o profissional considera que, atualmente, há uma luta maior contra a tecnologia. Para ele, as crianças e adolescentes não tem muito interesse na atividade física se não for a grupo, com convivência e interação. “Além disso, eles foram sobrecarregados com as atividades de casa e outros cursos, então gera um desinteresse em fazer as aulas online”.

Reflexo disto, neste mês de junho, José recebeu cerca de 20% de mensalidade e muitos comunicados de desistência para o próximo mês. “Alguns pais que comunicaram [a desistência] pela situação financeira, oferecemos manter o serviço, mas muitos se sentem constrangidos de não estar pagando para o filho fazer aquela atividade e acabam tirando-o”, observa. Neste cenário, José considera também a sobrecarga de muitos pais que estão trabalhando em home office e se desdobrando como professores para ajudar os filhos com as atividades escolares.

Comprometimento

No primeiro momento de quarentena, o profissional iniciou aulas por meio de aplicativos e gravações de vídeos explicativos e demonstrativos de técnicas para dar aos alunos a oportunidade de treinar fora dos horários de aula. Além disso, fez diversos comunicados tentando motivá-los.

Ele conta que a Federação de Taewkondo do Estado de São Paulo, por sua vez, também tem ajudado a manter o ritmo da modalidade produzido campeonatos online. “Mas nada se compara aos presenciais”, diz.

A maior dificuldade em relação aos alunos é, principalmente, com o público infantil, pois para os competidores, o professor monta planilha de treinos para a semana toda e acompanha por reunião. “O atleta tem uma disciplina maior. Ele sabe que os sonhos dele, o resultado dos objetivos dele, depende disso. Ele não pode parar, tem que continuar ativo”, explica.

Reabertura

O maior problema das fases de abertura dos setores é a população, considera José. “Eu precisei sair um dia e pude perceber que até os próprios donos dos comércios não se importam muito. Proprietários com máscara no queixo, nariz de fora; No banco, tinha o case de álcool, mas vazio; E a população não entende que deve sair somente para o necessário, eles saem por lazer, então complica”, lamenta.

José acredita que deve demorar muito até a liberação da quarta fase, que é quando as academias são liberadas para funcionar, de acordo com o Plano São Paulo de retomada das atividades. Mas, de todas as categorias, o profissional acha que o setor é a que vai voltar com mais consciência dos espaços e limitações.

“Eu acredito que se essa situação se prolongar por mais dois ou três meses, muitos espaços serão fechados. É claro que é mais importante a saúde e, a gente estando vivo, conseguimos reconstruir tudo, mas é muito complicado”, diz.

Para o profissional, o decreto não é maior problema do seu trabalho, pois, ao fazer uma pesquisa com os pais e alunos, caso a atividade seja liberada, muitos tem medo de retornar. “Maior porcentagem do meu público é de crianças e adolescentes que dependem dos pais que não mandariam de imediato. Estão todos com medo. O decreto está impondo, mas mesmo se quisermos abrir, não vai ser a mesma coisa. É uma situação que vai além, é muito mais profunda”, considera.

“Tenho certeza que não é a primeira vez que a humanidade passa por algo assim e não vai ser a última. “Vamos nos recuperar, mas a gente depende da consciência da população e de nossos governantes. A gente sente que existe uma crise política muito grande, mas ficamos na torcida para que tudo se resolva o mais rápido possível para voltar a trabalhar”.

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