A Campanha Setembro Amarelo acabou mas o assunto não deve ser cessado

Paula Partyka -paulapartyka@gazetaregional.com.br

O mês de setembro terminou e muito foi falado sobre a Campanha Setembro Amarelo. Este é o mês internacional de prevenção ao suicídio e, para entender o que é prevenção, é preciso entender um pouco contra o que é essa prevenção, pois só se pode agir diante de um fenômeno que se está disposto a conhecer.
Por isso, a psicóloga Clínica Deborah Voltan explica que o suicídio é um desfecho para uma situação complexa, que reúne uma série de fatores conflituosos nos campos social e pessoal do indivíduo, levando em conta seu ambiente, sua formação no campo dos relacionamentos  e até mesmo sua saúde. “Não é possível justificar ou explicar o suicídio por uma única causa aparente, já que o ato é um desfecho para o processo com inúmeros fatores que causam sofrimento intenso. Portanto, embora achar explicações seja uma tendência natural, julgar ou pressupor motivo exato para um acontecimento como esse, é bastante difícil e um tanto quanto simplista”. 

“Diante de uma pessoa nesse dilema, julgar, criticar ou mesmo aconselhar com base nos seus próprios valores e crenças, não ajuda. Seja para quem cometeu uma tentativa ou para aqueles próximos de pessoas que tiveram o ato consumado”. Deborah comenta que, ao contrário do que se pensa, a grande maioria das pessoas que tenta ou consuma o suicídio, não tem real intenção de morte e sim, de colocar fim ao sofrimento intenso que as consome e para o qual não vêem outra saída, senão morrer.

– “Quem quer se matar, não necessariamente se mata mesmo”. A psicóloga afirma que essa afirmação é um mito pois muitas vezes a tentativa é uma forma de comunicar uma dor insuportável. É preciso entender o acontecimento do suicídio como um sinal daquilo que não se pode dizer, uma dor pela qual torne-se impossível viver. Um ato desesperado que denota um pedido de ajuda, uma mensagem de socorro a qual precisamos escutar. Uma mensagem que já foi mandada por vezes, repetidamente e continuará sendo mandada até que seja vista, ouvida ou quando sem resposta que o ato seja consumado. Muitas vezes, não é possível controlar ou prever todas as variáveis que apontam para uma mensagem como essa, mas ajuda bastante estar atento e observar as pessoas que sofrem, pois ainda que seja uma maneira de chamar atenção, ou uma aparente ameaça, ela continua dizendo respeito a algo que não pode ser ignorado. 

– “Cão que ladra não morde”. Deborah diz que, contrariando o senso comum, quem ameaça pode fazer. Quem tenta pode tentar de novo e quem fala, pode tentar. 

A psicóloga ainda deixa dicas. Prevenir também é ajudar:

  1. Observe: o comportamento de isolamento e discurso de desistência e menos-valia.
  2. Ouça: muito mais que aconselhar ou criticar, escute! A pessoa precisa falar sobre aquilo que aflige, sobre os motivos que impedem de viver e mesmo sobre o desejo de morrer. Deixar com que a pessoa fale e oferecer uma escuta disposta e interessada, pode ajudar a esvaziar um pouco o copo cheio, e muitas vezes a diminuir o desespero que a pessoa sente naquele momento, o que ajuda ela a ganhar tempo para refletir e se acalmar. É importante poder ouvir sobre a vida e a dor que a pessoa tem. 
  3. Oferecer apoio, fortalecer o vínculo: fazer com que a pessoa saiba que não está sozinha.
  4. Proteger: quando possível, evitar acesso aos meios de suicídio, bem como, situações que a pessoa se coloque em risco.
  5. Notificar autoridades responsáveis e capacitados para lidar com o problema: Centro de saúde (no caso de pessoas próximas ao indivíduo), bombeiro ou polícia militar (em caso de tentativa eminente).

A sua disposição e ajuda quando bem direcionada pode fazer toda a diferença para quem precisa. Uma conversa sincera, pode realmente evitar que algumas pessoas tirem a própria vida.

Nos últimos anos o suicídio entrou na agenda do SUS como um problema de saúde pública, esse ano com parceria da Anatel, o serviço de escuta Centro de Valorização da Vida (CVV), tornou-se gratuito em todo país. Quem precisar pode ligar gratuitamente para o telefone 188.

Atende também pelo site: www.cvv.org.br. Todos atendimentos são mantidos em anonimato e os voluntários não tem qualquer tipo de contato com quem liga, além do atendimento. 

Deborah Voltan

Psicóloga Clínica – CRP: 06/122802.

Especialista em Psicologia Analítica pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.
Extensão em Prevenção ao Comportamento Suicida pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.
Pós-graduanda em Neuropsicologia pela Faculdade de Medicina da USP.
Contato: (19) 99494-3386